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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A Princesa de Lugar Nenhum - I

          Esta não é a história de uma garota, é a história de uma garota que lutou contra o mundo. Sentada no centro de um ginásio com as pernas cruzadas está uma menina de não mais que quatorze anos, uma garota magra e marcada pela dor apesar de seus poucos anos de vida.
             Angel não possui passado, suas origens foram há muito deixadas de lado, mas possui um futuro, Angel é a sucessora do trono de Liberty. Com uma aparência frágil, braços finos, rosto de feições extremamente infantis e longos cabelos lisos e negros não aparenta qualquer perigo a ninguém, mas as aparências enganam. No fundo de seu olhar está grande dor, Angel tem treinado dia após dia durante mais horas que seu corpo delicado aparenta suportar, para suceder seu pai na grande batalha que todos esperam que ela vença.
            É bem verdade que a bela garota de pele alva desconhece suas origens, nunca teve qualquer contato com seus falecidos pais, mas tem uma certeza, ela nutri um ódio profundo pelo responsável por seu sofrimento, este ódio é a única coisa que move o corpo de Angel durante dias e noites em seu refugio sombrio e deprimente durante as infindáveis horas de treino. Exatamente agora está entrando seu carrasco, Lorde Campell.

        - O que você pensa que está fazendo sentada? – A voz do Lorde ressoou como um trovão no interior de Angel que imediatamente voltou seu olhar para o homem de aparência imponente apesar de não ser muito alto. – Acha que vai vencer a guerra sentada? Aguardando que seus companheiros morram?

         - Não senhor. – Angel odiava as palavras do Lorde, mas não podia odiá-lo. Ele era tão vitima quanto ela. Mesmo Angel, tão nova, podia compreender bem o mundo a sua volta e ver que os responsáveis por sua dor não se encontravam dentro dos enormes muros da fortaleza Growns.
             O lorde não passava de um homem cumprindo ordens, ordens muito severas, vindas de pessoas importantes, os conselheiros do antigo rei. Estes foram os homens designados para orientar o reino, ou o que sobrou dele, até que a pequena Angel pudesse assumir o trono. O lorde caminhou até a pequena Angel e agarrou o pulso da garota com tanta força que pareceu ouvir-se um estalo.
               O jovem Campell foi treinado por exércitos inimigos, um treinamento muito rígido que endureceu sua alma, agora, tudo o que Campell podia oferecer era um olhar vazio e um treino árduo para a pupila. Após colocar Angel de pé, lorde Campell jogou em cima da garota um arco e apontou um alvo a oitocentos metros.

            - Já sabe, acerte ou treine até acertar. Não me faça corrigir sua postura novamente! – O lorde não era uma pessoa paciente e seus verdes olhos sempre a observavam ameaçadoramente, Angel teria que acertar o alvo ou treinar até que seus dedos sangrassem.


           Angel endireitou o tronco, posicionou o arco e aprontou a flecha, uma postura excelente, mas não era perfeita, lorde Campell não admitia nada menos que a perfeição, se aproximou de Angel e deu-lhe um tapa forte, mas brando o suficiente para que a garota se mantivesse de pé. Após esbravejar a vontade sentou-se, Angel arrumou o queixo e começou a disparar, até este ano nunca havia visto um arco de perto e tinha grande dificuldade em acertar a pequena maçã do outro lado do enorme ginásio. Angel esteve lá a treinar por horas e horas até que o impaciente lorde mandou que a jovem se retirasse. Angel, ao ouvir a ordem para se retirar, correu para fora do ginásio com uma velocidade impressionante, não por querer fugir do treino, pois se interessava pelo arco e flecha, mas porque ninguém gostaria de saber o que acontece quando se questiona um superior dentro daquela fortaleza.

          O quarto de Angel era frio e escuro, não era um lugar muito aconchegante, mas era o que a velha fortaleza em ruinas podia oferecer, seu quarto era completamente cinza, as paredes de pedra eram do mesmo tom cinza que estampava as muralhas que cercavam a fortaleza, em um canto estava uma cama que algum dia foi muito luxuosa, mas agora não passava de uma grande e ornamentada estrutura de madeira caindo aos pedaços, sua tinta, branca e dourada, descascando, as vezes caía sobre o colchão velho que fedia a mofo, do outro lado uma estante com alguns livros empoeirados e velhos, um lustre velho e simples no teto e em um outro canto a penteadeira que guardava em seu interior belos ornamentos de quando Angel era ainda uma pequena criança de dois ou três anos, também há muito esquecidos.
            Angel adentrou o quarto com uma expressão melancólica e sentou-se na cama que rangeu, a menina começou a tirar as terrivelmente pesadas braçadeiras, caneleiras, ombreiras e demais itens de sua enorme armadura de treino, era claro que não foram feitas para uma mulher, muito menos nova como Angel, mas Lorde Campell insistia que Angel a usasse como se tivesse sido feita sob medida, ou melhor, como se não estivesse usando nada, em todos os treinos, o temível Lorde exigia agilidade e destreza incomuns da pequenina, e a mesma deveria corresponder se não quisesse sofrer severas penalidades. Definitivamente não é este o tratamento adequado para uma princesa, mas lá, naqueles tempos, Angel não poderia ser considerada mais que uma prisioneira com um potencial incomum para a destruição.

           Angel, após tirar todo o peso do metal grosseiro que cobria seu frágil corpo, foi até a penteadeira, soprou o pó do espelho e limpou-o um pouco com uma das mãos, a imagem de Angel no espelho era triste, seu corpo magro e frágil dentro daquele macacão preto de mangas e gola alta se assemelhava a um espectro, sua pele alva ia revelando enormes vergões vermelhos, causados pelo enorme peso e inadequação da armadura à medida que afastava o colam para mudar suas roupas, a frágil garota estava muito cansada, mas não poderia dormir aquela noite, no dia seguinte deveria visitar o estábulo, o dia seria cheio e asqueroso, tendo em vista que a maior parte dos cavalos estavam doentes e famintos.
            Angel colocou seu vestido preto, o vestido cobria suas pernas até os tornozelos, possuía, assim como o macacão, gola e mangas cumpridas, mas era de um tecido muito mais leve e maleável, não se agarrava ao corpo de forma desconfortável como o colam que usava por baixo da enorme armadura, era folgado e leve, razoavelmente confortável. Angel calçou suas sapatilhas no lugar das enormes botas, caminhou vagarosamente até a porta e seguiu um enorme corredor cinza, assim como seu quarto e todo o resto da fortaleza, foi até o fim, onde encontrou uma porta.
                  Angel era terminantemente proibida de adentrar por aquela porta, mas era curiosa demais para não fazê-lo, todas as noites em que queria fugir Angel adentrava por aquela porta e se deparava com um enorme jardim na parte posterior da enorme fortaleza, Angel atravessava o jardim e corria ainda um pouco mais por entre algumas árvores até encontrar as enormes portas de madeira entalhada com minuciosos detalhes, assim como todo o resto do corpo ao qual aquelas temíveis portas pertenciam, eram as portas da enorme catedral de St. Charlle, a catedral possuía uma enorme torre e era completamente construída e ornamentada com estilo gótico, a catedral era a coisa mais imponente que Angel já vira em sua vida, apesar de abandonada e cheia de flores trepadeiras invadindo sua estrutura e do musgo que descia por suas paredes, era uma visão belíssima, seus vitrais com enormes imagens religiosas que Angel não podia compreender eram de maravilhar qualquer um, os enormes e extensos bancos de madeira a convidavam a se sentar e admirar a luz da lua adentrar por entre alguns vidros quebrados.
                   Angel se sentava nos grandiosos bancos de madeira e retirava de dentro da gola de seu vestido um pequeno terço de ouro e diamantes, uma peça belíssima que Angel encontrara no interior de sua penteadeira, sempre andava com ele, mas não tinha ideia de seu significado ou de sua utilidade, Angel o carregava, pois era a única parte bela que possuía de sua infância, ela tentava imaginar como o usava quando era apenas um bebê e ainda brincava com seus pais.
                    Angel não se lembrava deles, apenas acreditava no que as pessoas lhe contavam, mas ainda assim não conseguia nutrir grande amor pelas figuras que tinha em sua mente, apenas tentava, em pouco tempo sua mente já estava vagando, Angel imaginava como seriam as batalhas que travaria, como seriam os conselheiros de seu pai, se eram grandes homens, honrados e benevolentes, imaginava se todos eram severos como Lorde Campell ou se eram bonzinhos, Angel tinha medo de Lorde Campell, mas também nutria carinho por ele, Campell era o único referencial que Angel tinha, foi ele que, bem ou mal, cuidou de Angel e sua educação. Imersa em seus pensamentos Angel não viu a hora passar, e apenas despertou de seu devaneio ao ouvir a enorme porta da catedral ranger, ninguém deveria encontra-la ali, Angel se enfiou rápida e silenciosamente debaixo do banco e aguardou.
                   Um homem de estatura mediana entrou na catedral e se ajoelhou brevemente fazendo os sinais da cruz, sinais que Angel desconhecia por completo, para a garota, o homem, que agora se dirigia mansamente ao altar, estava obviamente delirando. O homem parou pouco antes da escadaria e se ajoelhou em um estranho móvel para o qual ela nunca havia encontrado utilidade, ele tirou da manga de sua enorme capa um terço consideravelmente maior que o terço de Angel, que havia sido feito para uma criança de três anos, e começou a passar as pequenas bolinhas de madeira por entre os dedos e sussurrar, Angel notou que o homem, apesar de delirante parecia saber para que servia aquele objeto e começou a se aproximar, mas muito cuidadosamente para não ser vista, pois seria certamente uma falta gravíssima.

                - ...Senhor, olhai para teu humilde servo e livrai-o do mal, e também a pequena Angel, livrai-a da vilania de meus falsos senhores... – foram estas as únicas palavras, em tom choroso, que Angel pode escutar do homem que após mais alguns segundos se levantou e se retirou calmamente da catedral.

             Angel observou a luz da lua que entrava pelos vitrais e se deu conta de que nunca havia ficado até tão tarde, foi se retirando também, com muito cuidado para não encontrar ninguém no caminho. Ao chegar em seu quarto, Angel vestiu um outro vestido, branco, lavou as mãos na cuia que ficava sobre sua penteadeira e se deitou, foi pensando no homem misterioso que adormeceu, imaginando se ele ia sempre até a catedral, e porque ele falava sobre ela e principalmente, com quem falava.

               No dia seguinte Angel acordou antes que o sol surgisse no horizonte e se dirigiu aos estábulos, a pequena garota passou a manhã com alguns peões mal cheirosos, recolhendo fezes e alimentando os cavalos, já desnutridos, com uma pasta sem cor e fedida. Na hora do almoço os homens, que não gostavam da presença de Angel, não lhe acolheram à mesa.

         - Não é a princesa de todo este “reino”? Arruma sua boa comida! Para que se alimentar de nossa pasta seca e sem tempero? Vá se reunir com os amigos de seu pai, o rei morto, e come fartamente!- Os homens riram alto da garota que observava estupefata as barbáries proferidas e os jocosos gestos exagerados em reverencia. Angel não poderia permitir que aqueles porcos cuidadores de animais falassem daquela forma dos conselheiros que regiam o reino da melhor forma possível até que ela própria pudesse assumir.

       - Cuidado com suas línguas rapazes.- Angel se aproximou da mesa para encher sua tigela, ela não tinha mais nada para dizer, apenas os advertia por mera formalidade, já que não nutria pelos conselheiros nenhum carinho ou respeito, apesar de saber que sua missão era nobre. Um homem alto, mas não o maior deles, se levantou com o rosto torcido em uma expressão de nojo e desdém.

      - Já dissemos para ir se servir em outro lugar fedelha, aqui não queremos mais ninguém!- O homem, com quase duas vezes a altura de Angel e, certamente, força muito superior, agarrou o braço da pequena garota e lançou-a longe da mesa. – Vai embora verme! – A pancada do corpo de Angel no chão foi acompanhada por um baque seco e a menina lá ficou por algum tempo, sem poder se mover, mas ao retornar do choque ela se levantou,  exatamente como Campell a ensinou e ficou de pé. Os homens, que já haviam voltado a comer, se voltaram novamente para a criança que se erguia de forma tão majestosa apesar de não quererem admitir.

       - Quer apanhar mais? – Falou o homem que a havia lançado longe, mas Angel não lhe respondeu, apenas sacou uma faca de dentro da bota e tornou a se dirigir para a mesa, ao se aproximar, o homem que havia batido na menina se ergueu novamente e contornou a mesa, se posicionando atrás da garota e erguendo a mão para agarrar o pulso da mesma, mas agora foi Angel quem agarrou o pulso do homem e puxou-o até apoiar por completo o antebraço do homem na mesa e fincar a enorme faca na mão do adversário, prendendo-o a mesa.

             - Que disse?- Falou Angel com a voz calma, olhando nos olhos do enorme homem, que assistia seu sangue se espalhar pela mesa. – Não me faça repetir a pergunta seu porco. Responde!

          - Nada, ele não disse nada!- Um homem ao lado de Angel disse. – Carllos não quis dizer nada disso, é que ele tem passado muitos problemas minha senhora! Solte-o por favor – O homem se ajoelhou – Eu imploro misericórdia!

         - Ah... Agora quer pedir por misericórdia, quando Carllos me lançou longe, sobre o chão duro e sujo estavam rindo. Ri agora! Vamos!- O homem permaneceu calado e Angel começou a mover a faca dentro da mão de Carllos.- Não estou ouvindo...- O homem caiu de joelhos aos pés de Angel.

     - Minha senhora, peça qualquer coisa, e eu farei, mas não posso sorrir enquanto esfaqueia meu irmão. Eu peço clemencia, já expliquei que estamos passando por um momento difícil em nossas casas. Todos nós. – Os outros homens já haviam se afastado e observavam a pequena Angel segurar um homem daquele tamanho com apenas uma mão enquanto negociava com o irmão do mesmo.

      - O que deverão fazer é o seguinte... Seu irmão, Carllos, deverá executar todas as minhas tarefas nestes estábulos, sem ajuda, até o fim desta semana. Se alguém ajuda-lo eu dobro a penitencia. Fui clara?

       - Sim minha senhora! Solte-o, por favor!

      - Agora vou solta-lo, e enquanto ele começa meus afazeres, que não são poucos, vai me servir e sentar. Quero falar com você.

       - Sim senhora!

       Angel soltou Carllos que caiu sentado no chão chorando e foi levado pelos companheiros para cuidar da ferida. Angel se voltou para o homem que a servia – Que situação difícil é esta pela qual passam? - O homem começou a relatar muita fome, morte e frio, disse que sua mãe havia morrido naquele fim de semana e que Carllos é quem estava cuidando dela, a mãe dos dois estava muito doente e os conselheiros não se dignaram a ouvir Carllos quando o mesmo foi ao palácio pedir por medicamentos, Angel não podia crer no que ouvia, afinal, os conselheiros eram homens muito justos, isto ela sabia, Angel se levantou, deu um tapa no rosto do homem que ficou assustado e mandou-o para o trabalho, ela, lá ficou, pensando nas coisas que ele havia dito, como era abusado, mentiroso e injusto.


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Espero que tenham gostado!! Na próxima semana Angel irá se encontrar com os conselheiros e descobrirá muito sobre os regentes do reino!

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Obrigada!
      Vou postar versões com ilustrações vez ou outra até os quadrinhos ficarem prontos!! Acompanha!

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Olá! Que bom que está visitando o blog, espero que esteja gostando!